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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ainda bem que existem pessoas sensatas neste país... enquanto Ministros de 
Tribunais Superiores queimam a Constituição e o Estatuto da Criança e do 
Adolescente, com uma decisão movida por preconceito e nitidamente permitindo a manutenção das diferenças de gênero, mal que se arrasta e envergonha a humanidade, a antropóloga Débora Diniz vem restaurar o que caberia a eles: a garantia dos princípios da legalidade e da igualdade que conquistamos com nossa Carta Magna... VALE A PENA LER!!!!!


01/04/2012 - 'Não há meninas prostitutas', diz antropóloga
Dom, 01 de Abril de 2012 20:31

(Débora Diniz, especial para O Estado de S. Paulo) Ainda estou para entender o que os magistrados brasileiros descrevem como “realidade”. Muito antes da pós-modernidade, essa palavra provocava tremores nos cientistas sociais. A realidade depende de quem a descreve e, mais ainda, de quem experimenta sua concretude na própria pele. 

A tese de que o Direito precisa se “adequar às mudanças sociais” foi a sustentada pela ministra do Superior Tribunal de Justiça Maria Thereza de Assis Moura para inocentar um homem adulto que violentou sexualmente três meninas de 12 anos. Não haveria absolutos no direito penal, defendeu a ministra, pois os crimes dependem da “realidade” das vítimas e dos agressores. Foram as mudanças sociais que converteram as meninas em prostitutas ou, nas palavras da ministra Maria Thereza, “as vítimas, à época dos fatos, lamentavelmente, já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo”. 

“Já estavam longe” foi um recurso discursivo que atenuou o sentido imperativo do julgamento moral da ministra sobre as meninas. Uma forma clara de traduzir seu pronunciamento sobre o caso é ignorar a atenuante e reler os adjetivos por seus antônimos. “As meninas eram culpadas, maliciosas, conscientes e informadas a respeito do sexo”, por isso não houve crime de estupro. Para haver crime de estupro, segundo a tese da ministra, é preciso desnudar a moral das vítimas, mesmo que elas sejam meninas pré-púberes de 12 anos. O passado das meninas - cabuladoras de aulas, segundo o relato da mãe de uma delas, e iniciadas na exploração sexual - foi o suficiente para que elas fossem descritas como prostitutas. Apresentá-las como prostitutas foi o arremate argumentativo da ministra: não houve crime contra a liberdade sexual, uma vez que o sexo teria sido consentido. O agressor foi, portanto, inocentado.

Descrever meninas de 12 anos como prostitutas é linguisticamente vulgar pela contradição que acompanha os dois substantivos. Não há meninas prostitutas. Nem meninas nem prostitutas são adjetivos que descrevem as mulheres. São estados e posições sociais que demarcam histórias, direitos, violações e proteções. Uma mulher adulta pode escolher se prostituir; uma menina, jamais. Sei que há comércio sexual com meninas ainda mais jovens do que as três do caso - por isso, minha recusa não é sociológica, mas ética e jurídica. O que ocorria na praça onde as meninas trocavam a escola pelo comércio do sexo não era prostituição, mas abuso sexual infantil. O estupro de vulneráveis descreve um crime de violação à dignidade individual posterior àquele que as retirou da casa e da escola para o comércio do sexo. O abuso sexual é o fim da linha de uma ordem social que ignora os direitos e as proteções devidas às meninas.
Meninas de 12 anos não são corpos desencarnados de suas histórias. As práticas sexuais a que se submeteram jamais poderiam ter sido descritas como escolhas autônomas - o bem jurídico tutelado não é a virgindade, mas a igualdade entre os sexos e a proteção da infância. Uma menina de 12 anos explorada sexualmente em uma praça, que cabula aulas para vender sua inocência e ingenuidade, aponta para uma realidade perversa que nos atravessa a existência. As razões que as conduziram a esse regime de abandono da vida, de invisibilidade existencial em uma praça, denunciam violações estruturais de seus direitos. A mesma mãe que contou sobre a troca da escola pela praça disse que as meninas o faziam em busca de dinheiro. Eram meninas pobres e homens com poder - não havia dois seres autônomos exercendo sua liberdade sexual, como falsamente pressupôs a ministra.
O encontro se deu entre meninas que vendiam sua juventude e inocência e homens que compravam um perverso prazer. Sem atenuantes, eram meninas exploradas sexualmente em troca de dinheiro.
Qualquer ordem política elege seus absolutos éticos. Um deles é que crianças não são seres plenamente autônomos para decidir sobre práticas que ameacem sua integridade. Por isso, o princípio ético absoluto de nosso dever de proteção às crianças. Meninas de 12 anos, com ou sem história prévia de violação sexual, são crianças. Jamais poderiam ser descritas como “garotas que já se dedicavam à prática de atividades sexuais desde longa data”. Essa informação torna o cenário ainda mais perverso: a violação sexual não foi um instante, mas uma permanência desde muito cedo na infância. Proteger a integridade das meninas é um imperativo ético a que não queremos renunciar em nome do relativismo imposto pela desigualdade de gênero e de classe. O dado de realidade que deve importunar nossos magistrados em suas decisões não é sobre a autonomia de crianças para as práticas sexuais com adultos. Essa é uma injusta realidade e uma falsa pergunta. A realidade que importa - e nos angustia - é de que não somos capazes de proteger a ingenuidade e a inocência das meninas.
* Debora Diniz é professora da UNB e pesquisadora da Anis: Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Justiça brasileira dá mais um passo e avança ao reconhecer o direito das mulheres em decidir sobre levar adiante ou encerrar uma gravidez cujo fruto não tem expectativas de vida. 
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STF aprova descriminalização do aborto em casos de anencefalia

  

O Supremo Tribunal Federal decidiu na última quinta-feira, 12, que a interrupção da gestação em casos de anencefalia -quando o cérebro do feto não é formado -não é mais crime. O texto que defendia a descriminalização do aborto para esses casos foi aprovado com ampla maioria de votos - 8 favoráveis e 2 contrários.
A principal discussão dos ministros sobre o tema foi sobre a definição do início da vida - já que a Constituição e o Código Penal não estabelecem esse momento. Entre os argumentos de defesa da alteração na lei, os ministros ressaltaram o sofrimento da mãe e a falta de condições de exames capazes de estabelecer a anencefalia na década de 1940, quando o Código Penal foi criado. Outro fato citado pelos defensores da descriminalização foi a legislação de 94 países que permitem a interrupção da gravidez nesses casos.
O julgamento começou na quarta-feira, 11, e cinco ministros votaram a favor: Março Aurélio Mello, Rosa Weber, Joaquim Barbosa, Luiz Fux e Cármen Lúcia. Além deles, no primeiro dia de debates, Ricardo Lewandowski votou contra a decisão. De acordo com Lewandowski, a liberação de qualquer tipo de aborto "abre portas para a interrupção da gravidez de inúmeros portadores de doenças que de algum modo levem ao encurtamento da vida". Março Aurélio Mello foi o primeiro ministro a votar a favor da descriminalização. Para o ministro "a gestação de feto anencéfalo representa um risco à mulher e cabe a ela, e não ao Estado, sopesar valores e sentimentos para deliberar pela interrupção, ou não, da gravidez".
No segundo dia de votação, na quinta-feira, 12, os debates duraram cerca de seis horas, e os ministros Carlos Ayres Britto, Gilmar Mendes e Celso de Mello votaram a favor da decisão. O presidente do STF, Cezar Peluso, após um longo discurso de defesa do feto, votou contra o aborto em casos de anencefalia.